AWEI!

Grito da Terra

Nova criação da Polifônica, “AWEI!" tem estreia prevista para junho de 2022

Com direção de Luiz Felipe Reis, a montagem é um contraponto artístico à devastação ecológica

e à política de destruição ambiental, étnica e social em curso no Brasil

 

“AWEI!” é a nova criação da Polifônica (RJ) e tem sua estreia prevista para o dia 17 de junho em São Paulo, no Sesc Av. Paulista. Resultado de um projeto que começou a ser elaborado em 2016, a obra traz à cena diferentes vozes que ecoam um grito comum pela Terra viva e contra a casa em chamas que se tornou o Brasil desde 2018, sobretudo, com a eleição do antipresidente Jair Bolsonaro. Com uma dramaturgia polifônica, que articula falas e textos de diferentes escritores, poetas e dramaturgos, "AWEI!" se insurge artisticamente contra o ecocídio, o etnocídio e o genocídio deflagrados pelo fogo do capital através de suas mais diferentes forças de destruição: as corporações financeiras, petroquímicas, agroquímicas, agropecuárias, mineradoras, madeireiras, o garimpo e muitas outras práticas empenhadas em devastar terras, corpos e subjetividades.

 

Em cena, uma polifonia dramatúrgica composta por textos de Eliane Brum ("Banzeiro Òkòtó"), Alberto Pucheu ("Pra que poetas em temos de terrorismos?", "Vidas rasteiras"), Eliane Potiguara ("Metade cara, metade máscara") e outres será articulada a uma polifonia cênica criada por dispositivos teatrais, audiovisuais e sonoros, em que cinco atores e um músico irão contracenar e investigar juntos modos de se contrapor às forças de Thanatos e de afirmar a potência criativa e regenerativa de Eros e de Gaia.

 

“AWEI!” investiga formas de resistir ao colapso e de vitalizar a existência através de práticas e poéticas que confrontam e se contrapõem às lógicas antropocêntricas, capitalísticas e coloniais que conformam o AntropoCapitaloceno. Este projeto é a nova etapa de uma pesquisa estética e temática conduzida pela Polifônica desde 2014, intitulada “Contra-cenas ao Antropoceno”, e que, desde então, já resultou em diferentes dramaturgias, espetáculos e pesquisas acadêmicas que abordam os impactos e as perturbações antrópicas e capitalísticas na forma e no funcionamento do Sistema Terra. 

 

Após a criação de obras como “Estamos indo embora...” (2015) e “Galáxias” (2018), “AWEI!” (2022) dá especial atenção à catástrofe ambiental, social e política brasileira, abordando crimes, tragédias e hecatombes ecológicas e étnicas antigas e recentes. Em seu título, "AWEI!" evoca um grito Yanomami de confirmação e de luta pela vida e, assim, o toma como horizonte ético e estético para a criação artística. Contra a contaminação e a poluição da atmosfera ambiental e comunicacional do país e do mundo, este projeto busca fazer da cena um espaço aberto à vibração e à reverberação de histórias, relatos e lutas de muitas pessoas que dedicaram e que dedicam suas vidas a confrontar a dinâmica colonial e do capital de aniquilação da vitalidade da Terra, ou seja: os povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas, ambientalistas, ativistas e muitos outros que se empenham em manter a floresta de pé, o céu no alto, as águas fluindo e a terra viva.

 

 

A TRAGÉDIA AMAZÔNICA

 

Além dos textos, a montagem também contará com diferentes intervenções audiovisuais, entre as quais uma instalação documental que articula o genocídio passado-presente dos povos indígenas com a crescente perseguição a ativistas e ambientalistas no Brasil, passando pelo trágico assassinato do seringueiro e ambientalista Chico Mendes (1944-1988), ocorrido há 35 anos, entre outros casos. Esta intervenção refere-se ao fato de que ao longo das últimas duas décadas o Brasil está entre os líderes do ranking mundial de assassinatos cometidos contra defensores do meio ambiente, com uma média de 40 assassinatos por ano, a maioria ocorrida na Amazônia.

 

Esta panorama de violência e de vulnerabilidade se agravou ainda mais nos últimos anos, a reboque da política antiambiental promovida por Bolsonaro. Desde 2018, o enfraquecimento sistemático das instituições de pesquisa, de fiscalização e de preservação ambiental, o ultrapasse impune de marcos legais e constitucionais, e, sobretudo, o crescente assédio financeiro nacional e internacional têm promovido a invasão e a violência contra povos e terras indígenas, assim como o colapso dos principais biomas brasileiros em velocidade jamais vista — tudo sob o estímulo da política destrutiva que rege o atual desgoverno brasileiro.

 

PESQUISA POLIFÔNICA.

 

Desde 2014 a Polifônica se dedica a uma pesquisa estética e temática focada nos conceitos de Polifonia Cênica e de Contra-cenas ao Antropoceno. Em conjunto, estas noções buscam estimular a experimentação de diferentes formas de abordar e de responder artisticamente ao AntropoCapitaloceno, ou seja, aos distúrbios ecológicos, sociais e políticos gerados pela engrenagem ideológica antropocêntrica, colonialista, capitalista e neoliberal.

 

CONTRA-CENAS AO ANTROPOCENO.

 

Partindo da premissa de trazer o Antropoceno ao campo teatral, a Polifônica tem investigado formas de transformar a cena em um espaço de contra-cena, isto é, um lugar de instauração de cenas empenhadas em se contrapor, desestabilizar e pulverizar as bases que sustentam o antropocentrismo e o projeto moderno-capitalista que nos trouxeram ao AntropoCapittaloceno e às suas múltiplas ameaças existenciais. A pesquisa, portanto, investiga as bases ontológicas, filosóficas e psicológicas que construíram o edifício ideológico da modernidade e do capitalismo, assim como as causas e os desafios gerados pela mutação climática e suas principais consequências: o colapso ecossistêmico de múltiplos biomas, perda acentuada de biodiversidade, aquecimento global, poluição e contaminação atmosférica, acidificação e elevação dos oceanos, eventos climáticos extremos e muitas outras instabilidades que impactam diretamente nas condições de vida e de habitabilidade do planeta.

 

— Vivemos neste ínfimo instante da História da Terra em que um pequeno grupamento de uma única espécie [os detentores de poder político e econômico dos chamados homo sapiens] se tornou uma força geológica primordial, a principal responsável pelas maiores transformações na paisagem e no funcionamento do Sistema Terra — diz o diretor. — Nos últimos 70 anos, sobretudo, a aceleração da engrenagem capitalista tem alterado, em velocidade maior do que em qualquer outra era, as oscilações termodinâmicas, os níveis de biodiversidade, e a fisiologia e a forma da Terra como um todo.

 

 

“A ideia de que a nossa espécie é de aparição recente no planeta (...), e que o modo de vida industrial, baseado no uso intensivo de combustíveis fósseis, iniciou-se menos de um segundo atrás, na contagem do relógio evolutivo do Homo sapiens, parece apontar para a conclusão de que a humanidade ela própria é uma catástrofe, um evento súbito e devastador na história do planeta”.

Eduardo Viveiros de Castro

 

 

“Se o teatro pretende se tornar, novamente, o teatro do mundo, ele precisa reaprender como carregar o mundo em seus ombros, e não só mundo, como tudo o que há dentro e sobre ele”.

Bruno Latour, antropólogo e filósofo

 

POLIFONIA CÊNICA.

Elaborada pela Polifônica, a partir de uma pesquisa sobre a obra teórica e prática de Heiner Goebbels, a noção de Polifonia Cênica busca estabelecer uma relação horizontal, descentralizada e colaborativa entre diferentes elementos, linguagens e formas de arte na composição do fazer teatral. Inserida nesta pesquisa, "AWEI!" pretende instaurar uma experiência multilinguagem, articulando dispositivos teatrais com a literatura, a poesia, a música ao vivo, além de instalações de luz, som e vídeo. O projeto se empenha, portanto, em articular reflexões filosóficas com provocações sensoriais a fim de sensibilizar e de engajar todos os envolvidos na experiência na tarefa de responder criativamente às transformações e às ameaças existenciais trazidas pelo AntropoCapitaloceno.

 

SOBRE A POLIFÔNICA

 

Fundada em 2014, no Rio de Janeiro, a Polifônica dedica-se a uma pesquisa estética e temática que busca articular as noções de Polifonia Cênica e de Contra-Cenas ao Antropoceno.

 

Em 2015, foi indicada ao Prêmio Shell 2015 na categoria Inovação com o experimento cênico-científico “Estamos indo embora...”, pela “multiplicidade de linguagens artísticas adotadas para abordar a ação do homem nas transformações climáticas”.

 

Em 2016, a Polifônica recebeu indicações e conquistou prêmios pela criação do projeto “Amor em dois atos”, que reuniu em uma mesma encenação duas obras do dramaturgo francês Pascal Rambert, “O começo do a.” e “Encerramento do amor”.

 

Em 2018, apresentou o seu novo trabalho, “GALÁXIAS”, que articulava textos de Luiz Felipe Reis com fragmentos da obra literária do escritor argentino, J. P. Zooey.

 

Em 2020, a Polifônica apresentou o solo teatral e audiovisual "Tudo que brilha no escuro", que foi indicado ao Prêmio APTR 2020-21 de melhor espetáculo inédito ao vivo.

Para 2022-23, a companhia planeja a estreia dos seguintes projetos: "AWEI!", "Vista chinesa", a partir da obra de Tatiana Salem Levy; "Eddy. História da violência", a partir da obra de Édouard Louis; e "2666", primeira adaptação teatral da América Latina para o romance homônimo do escritor chileno Roberto Bolaño.